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O DESBARATAMENTO
06/04/2016

por Reginaldo Penezi Júnior 
Conto de visitante que conferiu a exposição Um corpo estranho e enviou sua versão da história para a Casa das Rosas.

 *

Quando certa manhã uma barata acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se metamorfoseada num monstruoso ser humano. Estava deitada sobre suas costas pesadas como gente e, ao levantar um pouco a cabeça, viu seu abdome flácido, carnudo, prenhe de pelos irregulares e bagunçados, embaixo do qual uma prateleira, prestes a cair da parede, mal se sustinha. Suas duas pernas, lastimavelmente maiores e mais densas em comparação com três pares de pernas de um inseto, moviam-se com dificuldade diante dos seus olhos humanamente aflitos.

– O que me aconteceu? – pensou.

Não estava sonhando. De fato, transformara-se num homem, num monstruoso homem. A estrondosa queda que sofreu confirmou a surpreendente realidade: a grande prateleira não suportava o peso do seu corpo, então ruiu, ruiu derrubando tudo – garrafas de vidro, cadernos de jornal, caixas de papelão, potes de pregos e parafusos, entre outros objetos e utensílios esquecidos naquele compartimento sujo, quente, empoeirado e sem ventilação. A barata humana caiu sobre um paralelepípedo de ferro que produziu nela uma dor forte o bastante para fazê-la gritar, momento em que constatou a mudança do som que era capaz de emitir pela boca.

Permaneceu no chão por alguns minutos, sentiu-se segura ali. Afinal, sua compleição mudara, em verdade não era mais uma criatura quitinosa. Antes podia ser esmagada pelos pés de uma criança, e da noite para o dia esse medo deixou de oprimi-la. Quando pensou nisso começou a rir, e desatou a rir copiosamente depois de dizer:

– Eu não tenho sangue de barata! Ora, não sou mais uma barata!

Quem a ouvisse decerto poderia julgar que se tratava da voz de um homem louco. Mas a fala e a risada eram frutos da estranha descoberta.

Além do próprio corpo transmutado, quanta coisa havia para se descobrir ali mesmo, sob uma nova mira, no ambiente pequeno e hostil ao monstruoso homem! Sobretudo, quanto havia para fitar lá fora! Tudo era metamorfose! No entanto, difícil era ficar recostado naquele espaço reduzido, mais ainda em meio a uma sujeira descomunal e ideal para baratas.

Ainda sobre o chão, o monstruoso homem fez uma sumária análise visual em torno da área e, movido por um misto de claustrofobia e curiosidade, levantou-se energicamente, pôs-se a fuçar todo o lugar, e na medida em que o explorava ia dando nova disposição aos materiais espalhados de acordo com seus primeiros princípios de organização.

A porta não abria. Restava a janela: a paisagem que ela descortinava consistia apenas numa parede amarelada e cheia de fissuras. O monstruoso homem abriu essa janela e projetou a cabeça para fora, de modo a se deixar sentir e respirar o ar abundante e poluído.

Melhor assim: a curiosidade ficou maior, claustrofobia quase não havia mais. Então o monstruoso homem continuou a vasculhada e durante o ato achou um punhado de baratas. Teve nojo desde logo, e no mesmo instante catou uma vassoura, varreu as baratas a um canto e foi pisoteando o conjunto. E na sequência, as que tentavam escapar ele foi ceifando uma por uma, no encalço da fuga.

No fim da alvorada o monstruoso homem desceu pela janela e ganhou a rua. Não se sentiu bem enquanto caminhava. Quando se sentou sobre o banco de uma praça começaram a emergir em sua consciência traços aflitivos de remorso. Lembrou-se da varredura das baratas, em seguida rememorou de que no dia anterior era uma delas. E gritou para as pombas:

– Sou um monstro!

Teve a sensação de receber uma lição elementar da vida humana: cedo ou tarde o poder mutila a lembrança da origem.

 

Post originalmente publicado em: https://domforasteiro.wordpress.com/2016/03/16/o-desbaratamento/


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